De olho no MVE, o Empreendedor Mínimo Viável

A pergunta parece simples, mas não é. Startups se esforçam nos dias de hoje para produzir apresentações e mostrar, em poucos minutos, todas as funcionalidades e características dos produtos e serviços que pretendem desenvolver. Mas será esse mesmo o “produto” a ser comprado pelos investidores anjo e fundos?

Contextualizar o produto a ser desenvolvido por sua empresa nascente é sem dúvida um aspecto importante de seu modelo de negócio, mas no tocante à “venda” do aplicativo ou plataforma que você, de forma tão dedicada, está demonstrando durante um pitch para os investidores não é o suficiente. Os investidores também estão comprando o empreendedor; seu poder de oratória, de persuasão, de paixão pelo negócio e seu potencial futuro de dedicação. Além de tudo o mais, você será analisado por suas características empreendedoras.

Parece aterrador, mas enquanto você está em meio ao seu pitch elaborando exemplos, planos e metas para o seu produto, investidores estão inevitavelmente com a seguinte pergunta na cabeça: “devo investir nesses caras”?

O mínimo viável
O termo e o conceito de MVP já se tornaram populares entre a cultura das startups brasileiras. O Produto Mínimo Viável nada mais é do que uma idealização de um produto e ou serviço que contenha funcionalidades mínimas para um ciclo de feedbacks (construir – aprender – medir) e que possua potencial de venda em escala, preferencialmente com um custo fixo e variável mais enxuto possível neste início de processo de aprendizado.

Ainda no conceito de MVP, o norueguês Tor Gronsund, professor de empreendedorismo na Universidade de Oslo, tem uma interpretação gráfica interessante.

Empreendedor Mínimo Viável

A curva questiona a relação entre o apelo do MVP junto aos formadores de opinião de um determinado segmento que podem ser os primeiros a experimentar aquele determinado produto ou serviço – chamados de early adopters – e que podem dar muitos feedbacks construtivos na fase inicial de desenvolvimento. Gronsund também levanta muito a questão do “one-feature“, na qual um produto deve ser simples, mas não ridiculamente simples a ponto de sequer despertar o interesse dos poucos e influentes entusiastas espalhados entre o público, ou seja, o produto deve ser minimamente viável, mas não simplista ao ponto de não encantar “early-adopters“. O apelo inovador e a correta comunicação dessa inovação são fundamentais para que o MVP passe para a fase seguinte.

Sob tal análise, a mera destituição de funcionalidades rumo a uma funcionalidade central que caracteriza o produto, serviço ou mesmo a própria startup não seria suficiente. Além disso, sabendo que uma miríade de startups com produtos “one-feature” irão simplesmente falhar em seus esforços para atrair o público. Sob essa óptica, o MVP sem dúvida conta no “apelo junto a investidores”, mas não diz absolutamente nada sobre as características de seus empreendedores.

Como citamos no início do artigo, os investidores estão de olho em suas características de empreendedor, temos que pensar sobre qual seria, para eles, o verdadeiro MVP – que no caso não trata-se apenas do produto mínimo viável, mas também do MVE – Empreendedor Mínimo Viável ou Minimum Viable Entrepreneur se quisermos americanizar o conceito.

Sob tal pressuposto, podemos considerar que, sob a visão do investidor ou mesmo do mercado, uma startup, assim como o produto ou serviço que a mesma busca introduzir, deve possuir algumas características mínimas que a tornem viável. Aplicando a curva de MVP de Gronsund às variáveis “apelo junto a investidores” e “características da startup” teríamos um ponto da curva no qual o MVE se manifesta. Nesse ponto, um mínimo capital investido na recém-formada empresa a levaria ao sucesso, gerando o máximo retorno ao investidor.

Empreendedor Mínimo Viável

Literalmente: a pergunta de um milhão
Investidores certamente se fazem tal pergunta a cada nova rodada de startups – qual o perfil mínimo que os empreendedores devem ter para que valha a pena desembolsar ou investir em suas startups. Contudo, poucas startups parecem estar se questionando desse modo.

Para atingir o “ponto do MVE” na curva, no entanto, algumas dicas parecem de valor para empreendedores que queiram aumentar suas chances:

1 – Ouça o mercado – investidores migraram seu capital de outras aplicações para startups, mas nada impede que o caminho inverso ocorra em algum momento. Sua empresa deve oferecer propostas de remuneração do investimento claras e melhores que outras opções de aplicação;

2 – Vista a camisa – se você criou um negócio já com o objetivo de se desfazer dele, parece improvável que esse empreendimento vá atrair a atenção de outros investidores;

3 – Tenha uma equipe diversificada – as características dos membros fundadores devem cobrir o maior número possível de áreas, sem que haja excessiva repetição de perfis. Um designer e um programador constituem um produto mais completo do que dois programadores juntos;

4 – Mentores – mantenha próximos mentores que possam complementar as áreas sensíveis e pontos fracos do seu modelo. A função de um mentor não é “torcer” pelo seu negócio, mas sim identificar possibilidades de torná-lo mais atraente para o investidor. O bom mentor deve ter as boas perguntas não todas as respostas;

5 – Entenda o básico de administração – aspectos jurídicos e contábeis são inevitáveis. Vivemos em um país burocrático e complexo e investidores precisam ter a segurança de que você saberá como tocar um negócio quando chegue a hora;

6 – Não seja inocente – o pressuposto de um investimento financeiro é gerar lucro. Faça com que sua ideia tenha consistência do ponto de vista do faturamento e do lucro. Um produto que atende a uma necessidade é bom, mas um produto que atende a essa mesma necessidade gerando lucros é infinitamente melhor.

As dicas acima certamente lhe ajudarão a atingir o MVE, mas outros fatores atentam contra a viabilidade de empreendedores. A visível falta de dedicação ao negócio, a carência de iniciativa, o domínio de apenas uma única disciplina, entre outros. Voltando ao conceito de MVE, chegamos a um consenso a respeito de sua definição:

“MVE é o conjunto de características e perfis mínimo de um ou mais empreendedores, que oferecem aos investidores ou a si próprios a segurança mínima de que um modelo de negócio será desenvolvido, de modo a gerar um plano de negócios sustentável e retorno financeiro” – André Telles – Carlos Matos

Resumidamente, nosso conselho principal é não se deixar ser levado por modismos e verificar se você realmente tem as características necessárias para se tornar um empreendedor: aceitas feedbacks com naturalidade, mudas de rumos com agilidade e estar disposto a assumir riscos e, por vezes, fracassar.

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